O primeiro contato com a capoeira
"No interior da Bahia eu sempre via as pessoas fazendo os movimentos de pernadas, jogando, mas de forma espontânea, sem berimbau.
Mais tarde Camisa Roxa foi estudar em Salvador. Quando voltava, nos mostrava as técnicas de capoeira que estava aprendendo com Mestre
Bimba. Esses pequenos aprendizados serviam de brincadeira entre os primos e aumentava nosso interesse pela capoeira. Além disso, as
pessoas mais velhas da região, sempre tinham alguma história de capoeiristas e suas façanhas: um que batia em 3 ou 4 ao mesmo tempo,
outro que tinha o corpo fechado"(...)"naquela época todo mundo usava facão na cintura, eu gostava de ficar vendo os mais velhos
mostrando as técnicas de manuseio do facão"(...)"Quando se entrava num lugar de respeito, como a igreja por exemplo, se tirava o
chapéu e o facão e os deixava na entrada."
Da Fazenda Estiva até Salvador
"Nossa família tinha uma pequan fazenda chamava Estiva, onde morávamos, que ficava no interior da Bahia, dentro do distrito de
Jacobina. Em Jacobina os colégios só ofereciam escolaridade até o científico. Os mais velhos sempre acabavam indo pra Salvador,
afim de completar os estudos. Meu pai adiou ao máximo minha ida para Salvador, talvez porque tenha apostado na minha vocação para
cuidar da fazenda, quando ele morreu fomos todos morar na Lapinha em Salvador..."
As rodas de rua e das festas populares
(...)"em Salvador eu gostava de freqüentar as festas populares, ver, e depois participar, das rodas de rua"(...)"Passei a jogar
com mais freqüência nas rodas de Mestre Valdemar, na Liberdade (Pero Vaz)"(...)" Camisa Roxa me encontrou de madrugada jogando
capoeira numa roda e achou que aquilo era perigoso para um menino de 12 anos. Em conversa com a minha mãe ele alertou sobre o
perigo da situação, e ela, que até então não me permitia treinar capoeira por achar que eu não ia muito bem nos estudos, achou
por bem me matricular na Academia de Mestre Bimba. Mas o que ela não soube que uma vez matriculado na academia, eu passei a fazer
as duas coisas, treinar na academia a noite e jogar nas rodas de rua e das festas de dia ..."
A academia de Mestre Bimba
(...)" A primeira vez que fui a Academia de Mestre Bimba foi com meu irmão, apenas como visitante por ainda morava na fazenda. Fiquei
atento a tudo que acontecia na aula, depois quando meu irmão me deixou em seu apartamento em Salvador para ir estudar, eu afastava os
móveis e ficava tentando repetir tudo que vi"(...)" Já matriculado treinava com empenho, fui batizado por um aluno chamado Calango e,
em mais ou menos, um ano eu já era aluno formado do Mestre, em função da base com que entrei na academia..."(...)"Aprendi muito da
capoeira conversando com Mestre Bimba, ele já era um homem velho, já não usava mais o corpo para demonstrar"(...)"Mestre Bimba nos
transmitia muita energia em suas aulas, o que facilitava o aprendizado"(...)"A academia era em forma de quadrado, na hora da roda os
alunos sentavam no banco e ele tocava o seu berimbau sem nenhum acompanhamento"
A chegada ao Rio') ?>
(...)"Naquela época já havia o comentário que Mestre Bimba ia para Goiás enquanto meu irmão estava preparando uma turnê pelo Brasil
com o grupo folclórico Olodum Maré. Eu, que sempre assistia os ensaios, resolvi acompanhar essa turnê de um ano"(...)"Participava
de várias números, mas com maior freqüência os de capoeira"(...)"Quando iniciou a viagem eu já intuía que não voltaria mais a morar
em Salvador, nas cidades onde passávamos eu sempre avaliva a possibilidade de morar ali"(...)" No Rio de Janeiro o show ficou em
cartaz durante 3 meses e depois seguiu para Europa com o nome de Brasil Tropical"(...)" A cidade me cativou, foi uma grande
identificação com o samba, as escolas de samba, os morros, a vida social e a cultura de uma forma geral"(...)" não podia seguir com
o grupo pois tinha de ir pra Salvador para estudar"(...)" o navio partiu para a Europa e eu no cais assistindo, apenas com a minha
passagem para Salvador e alguns trocados que dava para mais uns dias de pensão. Rasguei a passagem e apostei no meu sonho de dar
aulas de capoeira..."
Vivendo de Capoeira
(...)"meu primeiro aluno foi um gaúcho de Pelotas, que tinha assistido o show do Olodum Maré em Porto Alegre, e ao passar na rua viu
uma plaqueta indicando Aulas de Capoeira. Ao entrar me reconheceu do show Furacões da Bahia do grupo"(...)"Depois entraram outros
como Claudio Moreno"(...)"Comecei ensinando capoeira encima do método do Mestre Bimba, mais tarde fui sentindo a falta de algo mais,
motivação, empolgação seilá, então eu passei a acrescentar algumas coisas ao método para adequá-lo ao momento e as circunstâncias"
(...)"Nessa época eu sentia muita solidão, a noite no meu quartinho eu ouvia músicas que falavam da Bahia e chorava. Nos fins de
semana e feriados eu não tinha rumo e então batia uma saudade danada. O dia custava a passar, foi então que passei a dar treinos nos
fins de semana para ficar menos tempo sozinho."
Fundação da ABADÁ-Capoeira
(...)"A idéia da ABADÁ surgiu a partir dessa dificuldade que passei no início, a falta de uma estrutura para dar aulas, para redigir
um documento, para moradia, para discussão sobre técnicas, conceitos, graduação, mas acho que principalmente para dar uma estrutura
familiar a tantas pessoas que deixam para trás suas cidades, suas famílias, para viver de capoeira. Talvez por ter passado pelo que
passei, me juntei aos alunos que davam aulas aqui no Rio e em outros estados, para fundar a Associação que de alguma forma nos desse
estrutura e aparasse os novos capoeiristas"(...) "A busca pelo nome demorou porque tinha que sintetizar o que era a associação e ao
mesmo tempo tinha que ter uma relação básica com capoeira".